AS DISSONÂNCIAS DA NAÇÃO EM GUIMARÃES ROSA
Cléa Corrêa de Mello - UFRJ
Disse-me certa vez um professor estrangeiro que invejava os historiadores brasileiros que podiam assistir pessoalmente às cenas mais vivas do seu passado.
Prado Júnior, 1981, p. 12
A novela “Uma estória de amor (Festa de Manuelzão)”, de Guimarães Rosa, narra os últimos preparativos e a própria festa de consagração de uma capelinha à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, mandada construir por Manuelzão, administrador da Samarra, um lugar descrito logo no primeiro parágrafo em suas precariedades: “nem fazenda, só um reposto, um currais-de-gado, pobre e novo ali entre o Rio e a Serra-dos-Gerais /.../” (ROSA, 1977, p. 107)[1]. Manuel Jesus Rodrigues, ex-boiadeiro, agora exercendo a função de capataz, fora escolhido pelo sempre ausente proprietário das terras, para explorá-las e “Na Samarra, aliás, Manuelzão conduzira o início de tudo, havia quatro anos, desde quando Federico Freyre gostou do rincão e ali adquiriu seus mil e mil alqueires de terra asselvajada.” (p. 111). O dono de tudo, sabemos pelo narrador, o incumbira da grande empresa: “Te entrego, Manuelzão, isto te deixo em mão, por desbravar! E enviou o gado. Manuelzão: sua mão grande. Sua porfia.” (p. 111)
Agora o capataz teria sob seu comando não apenas uma série de trabalhadores da fazenda, como também os demais habitantes da Samarra, numa inversão do papel ao qual estava acostumado. Ademais, ele “em sua vida, nunca tinha parado, não tinha descansado os gênios, seguira um movimento só” (p. 109-110) numa errância típica da condição dos trabalhadores que vivem em propriedades alheias, dominadas pela pecuária extensiva.
Outro personagem de imprescindível funcionalidade na trama narrativa é o senhor de Vilamão que, muito embora já estivesse “quase cego, tão velhinho para andar, parecia todo de vidro” (p. 120) também comparecera para a festa. Este rico latifundiário é apresentado como “miúdo mansinho de tão caduco, o pai dele /.../ o maior de todos os fazendeiros, no rumo de Paracatu.” (p. 135) Orbitando a série de personagens que acabamos de mencionar, e assumindo papel relevante na estrutura de “Uma estória de amor (Festa de Manuelzão)”, também o povo chega para a festa.
Poderíamos, então, sintetizar o entrecho da novela da seguinte maneira: relato da crise de identidade sofrida por um ex-boiadeiro (no presente do relato próximo dos sessenta anos), desencadeada pela realização de uma festa, que promove; nas comemorações exibir-se-á como aquele que manda na Samarra quando, na realidade, sendo apenas administrador e não proprietário como gostaria, tem o seu poder limitado, o que o leva a pensar que estaria representando uma farsa.
Em vista disso, a riqueza desta narrativa, entre outros motivos, reside no sutil e complexo processo porque passa o capataz: o equilíbrio instável percorrido por pensamentos que vagueiam da consciência para a alienação e vice-versa, ou se assim o quisermos, de uma identidade para outra. Pois aqui nos afastamos da identidade de um sujeito do Iluminismo baseada, segundo Stuart Hall, numa concepção do indivíduo totalmente centrado com “capacidades de razão, consciência e ação, cujo núcleo interior emerge com o seu nascimento e desabrocha com ele, contínuo e idêntico a si mesmo durante a existência individual”. (HALL, 1999, p. 6) Estamos, sim, confrontados com o sujeito pós-moderno, isento de identidade fixa, permanente ou essencial. Nesta perspectiva, a identidade tornou-se uma ‘festa móvel’ - formada e transformada continuamente em relação às maneiras pelas quais somos representados nos sistemas culturais que nos circundam, sendo histórica e não biologicamente definida. Ainda segundo Hall, neste cenário, “o sujeito assume identidades diferentes em momentos diversos, e estas não estão unificadas em torno de um self coerente”. (Ibidem, p. 9)
Muito embora a pequena sinopse que propusemos acima condense os principais eixos temáticos da narrativa, pouco ou nada revela a respeito do intrincado jogo, proposto pelo texto, de estruturações e desestruturações de um conjunto de identidades a partir dos personagens Manuelzão, senhor de Vilamão e Federico Freyre, e das temporalidades que vivenciam. Temporalidades que propõem outras leituras sobre a história da nação, assim como sobre sua identidade. Ou seja, num mesmo presente narrativo convivem representações de temporalidades distintas do espaço sertão. O capataz alegoriza um presente perplexo e sua gama de desafios, de impasses e também de possibilidades. Já o senhor de Vilamão seria o passado, ordem percebida como anacrônica, mas que não apenas persiste como mantém um poder significativo. Por último, Federico Freyre comporia o ordenamento moderno, ao representar o empreendedor ágil em delegar tarefas e em auferir lucros explorando indivíduos com limitados poderes de negociação.
De fato, caso inscrevamos a obra de Guimarães Rosa num contexto mais amplo do que o universo literário, inserindo-a no conjunto de textos que pensam o Brasil, ou mais especificamente, o desafio do sertão, identificaremos pontos de contato da narrativa rosiana com uma considerável linhagem de estudiosos voltados para compreender a realidade nacional. Nesta medida, seria possível perceber o fluxo entre os paradigmas semânticos que configuram e articulam a construção discursiva do nacional em “Uma estória de amor (Festa de Manuelzão)” e os textos de diferentes pensadores sociais.
Perscrutar nosso passado para o entendimento do presente e planejamento do futuro tem sido o caminho percorrido pelos intérpretes da nação. Ocorre que a análise da articulação passado/presente/futuro, além de ter se processado de forma distinta, ao sabor dos comprometimentos ideológicos dos proponentes, implicou ora o ocultamento, ora o revelar de vários aspectos de nossa formação social. Daí a relevância de reconhecermos a inusitada estrutura sobre a qual “Uma estória de amor (Festa de Manuelzão)” está montada, e, mais importante ainda, aproximarmo-nos do seu sentido. Pois, no exíguo espaço geográfico da Samarra, onde transcorre a narrativa, desenrola-se uma extensa cena histórica que repõe para o leitor, sintética e magistralmente, um vasto caleidoscópio da história nacional. E, se para atingir semelhante efeito outros escritores se valeram do recurso do flash-back, Guimarães Rosa, ao contrário, dele abdica, dispondo no presente narrativo exemplos do que seriam nossas diversas temporalidades.
Portanto, no âmbito da organização discursiva, temos como índice fundamental da contigüidade arcaico-moderno a confluência, no presente narrativo, de três personagens-chave – senhor de Vilamão, Manuelzão e Federico Freyre. Todavia, cada um destes, muito embora aglutine imagens distintas no que concerne a identificações temporais, acaba por compartilhar um mesmo continuum histórico que deixa aflorar em sua torrente ruínas do passado, válidas, vigentes e vigilantes.
Vários ensaístas brasileiros reconhecem o sertão como uma categoria articulante do discurso construtor da identidade nacional. Contudo, nas obras de autores como, por exemplo, Euclides da Cunha (Os sertões, 1902), Capistrano de Abreu (Capítulos da história colonial, 1907), Oliveira Viana (Populações meridionais do Brasil, 1920), ou mesmo Cassiano Ricardo (Marcha para oeste, 1940), é o olhar do homem do litoral que se detém sobre o espaço sertão, num enfoque ratificador da assimetria do centro sobre a margem. Nestes textos, vigora a simplicidade das visões dicotômicas sedimentadas nas fórmulas que associam sertão a atraso, e litoral a progresso.
Estes autores, de acordo com as ideologias hegemônicas tenderam, o mais das vezes, a explicar a especificidade do espaço sertão ora pelas suas características mesológicas, ora devido a suas características étnicas. Assim, distanciavam suas análises das variantes relativas ao processo histórico-econômico que, por certo, explicam de forma muito diversa as questões daquela área; em conseqüência, produziram a idéia de sertão como cerne do problema nacional, e motivo do atraso do país. Esta abordagem evita relacionar a penúria e a indigência do interior à prosperidade dos senhores da terra, e à industrialização acelerada e dependente que atingiu nossos centros urbanos nas primeiras décadas do século.
Durante muito tempo, insistiu-se em construir uma imagética do sertão que pouco refletia a sua complexidade e que, sobretudo, sedimentava as injustas relações do interior com o litoral. Desde as iniciativas românticas de textos como O sertanejo, de José de Alencar compõe-se um espaço sertanejo inóspito, arredio à civilização, atrasado. Muito papel e muita tinta foram gastos até que, num giro radical, nossa intelectualidade começasse a vislumbrar neste mesmo sertão outras possibilidades. E se, ao contrário do litoral conspurcado pelas influências alienígenas, como no dizer de alguns, pudéssemos resgatar no âmago da nação sua essência mais autêntica? Daí para a experiência de escritores/etnógrafos, pouco mais foi necessário. Escritores que, como Guimarães Rosa, seriam a prova contundente do longo percurso pelo qual transitou o imaginário sobre o sertão, imaginário este que variou de uma perspectiva conservadora e, porque não dizê-lo, redutora, até um ângulo que contemplava os múltiplos interesses em jogo:
Esta visão do sertão como realidade múltipla e ambígua, ao mesmo tempo específica e genérica, concreta e abstrata, exterior e interior, é o que distingue a região representada no Grande sertão: veredas da que se encontra na ficção regionalista anterior tanto do Brasil em particular quanto da América Latina de maneira geral. Enquanto neste tipo de ficção, a região é abordada apenas por uma perspectiva unilateral, ora como refúgio natural pitoresco, ora como terra inóspita que traga e destrói o homem, e é sempre retratada, por meio de uma série de clichês, em seus aspectos puramente superficiais, no romance de Rosa ela se insurge como realidade viva e dinâmica, profunda e contraditória (COUTINHO, 1993, p. 29).
No texto rosiano, no lugar do discurso da conciliação nacional e da abordagem da História como progresso civilizatório, encontramos a impossibilidade de se determinar um único caráter dominante que tipificasse o “ser nacional”, e um discurso não mais ufano sobre a História, tampouco prometendo um final feliz. Uma vez que a unidade é impossível, restam os cacos e as ruínas de uma história narrada de forma crítica e melancólica. Ao agudizar a consciência das contradições internas e do subdesenvolvimento, a narrativa mostra como o discurso sobre a identidade cultural, sobre a nação e sobre a História perde o cunho de unidade, de totalidade.
Guimarães Rosa narra, com destreza de miniaturista, os pequenos mas, no conjunto, significativos detalhes que compõem o modo de viver no espaço sertão. A novela, como um atilado ensaio etnográfico, descreve vários aspectos de um grupamento humano: hábitos alimentares, características da sua arquitetura, indumentária, aspectos do lazer e da religiosidade, formas de relacionamento entre os gêneros e as etnias, atividades produtoras, padrões hierárquicos. Nesta medida, “Uma estória de amor (Festa de Manuelzão)” se coloca muito próxima dos trabalhos de antropologia social onde são tratadas as características socioculturais de um povo com seus costumes, crenças, comportamentos e organização social. Todavia, o autor mineiro transcende o mero descritivismo, incorporando ao seu texto um verdadeiro crivo analítico da conjuntura nacional, como o intentado por diferentes pensadores sociais. Por conseguinte, logra repor, literariamente, os efeitos contraditórios e paradoxais do capitalismo e da modernização sobre a vida brasileira. Como bem o salienta Deise Dantas Lima, estudiosa de sua obra:
/..../ ao expressarem sob ângulo diverso uma dada realidade sócio-histórica, as novelas de Corpo de baile problematizam o discurso progressista da modernização que chega para se impor sobre as contradições da vida brasileira, mostrando a permanência de uma economia de pobreza, gestada e reproduzida sob as amarras do latifúndio. Nestas novelas acontece alegoricamente a figuração da permanência do arcaico - a propriedade e a concentração da terra, desde o início do processo colonizador até sua comprovação pelo censo de 1950 - e da imposição renovadora do moderno - representada pela política de substituição de importações sob os auspícios da implementação da indústria de base. Erguendo-se lado a lado e ao mesmo tempo, estas duas realidades destroem a linearidade contínua entre arcaico e moderno desenhada por um discurso que concebe a História como movimento unidirecional com vistas a um aperfeiçoamento constante e progressivo, para substituir ou eliminar os estágios anteriores. (LIMA, 1999, p. 139)
Neste sentido, a maneira como o Rosa arquitetou a simultaneidade dos planos temporais da narrativa que articulam o antes, o agora e o depois de personagens e, por extensão, o espaço sertanejo, também responde pela original solução poética que, apropriadamente, resgata as peculiaridades de nosso processo de modernização conservadora. Outrossim, dispor simultaneamente, no presente narrativo, personagens que representariam, segundo o senso comum, etapas isoladas do passado, do presente e do futuro do país, mais do que exibir uma peculiaridade literária significa ler o imaginário nacional pela contramão. No lugar de uma abordagem etapista, segundo a qual o presente eliminaria o passado arcaico e obsoleto, para logo ser considerado insatisfatório e descartável por um futuro redentor, Guimarães Rosa encena uma temporalidade plena. Nesta, justapõem-se passado, presente e futuro numa simultaneidade que além de reativar problemas históricos, resgata a complexidade de nossa condição.
Referências Bibliográficas:
ABREU, J. Capistrano de. Capítulos da história colonial.: 1500-1800. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988.
BHABHA, HOMI. K. (ed.) Nation and Narration. London & New York: Routledge, 1995.
_____. The Location of Culture. London & New York: Routledge, 1994.
COUTINHO, Eduardo F. Em busca da terceira margem: ensaios sobre Grande sertão: veredas. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1993.
_____. (org.). Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/INL, Coleção Fortuna Crítica, v. 6, 1983.
CUNHA, Euclydes. Os sertões: campanha de Canudos. 20. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1946.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 3. ed. Rio de Janeiro: DP & A Editora, 1999.
LIMA, Deise Dantas. No Mutúm, na Samarra, no Pinhém: encenações do Brasil rural, em Corpo de baile, de Guimarães Rosa. Niterói: UFF, 1999 (mimeo).
PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. 17. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981.
RICARDO, Cassiano. Marcha para oeste: a influência da “bandeira” na formação social e política do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1940.
ROSA, João Guimarães. Manuelzão e Miguilim (Corpo de baile). 7. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977.
_____. Ficção completa; em dois volumes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
VIANA, Oliveira. Populações meridionais do Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1973.
[1] Para agilizarmos nossa exposição, as citações de “Uma estória de amor (Festa de Manuelzão)”, colhidas na mesma edição, terão, a seguir, apenas a indicação das páginas.